quarta-feira, 18 de março de 2009

Minha identidade é o samba.

Hoje tomei a liberdade de publicar o meu artigo por aqui, por vários motivos o primeiro é a minha vaidade que entende que nesse espaço as minhas palavras terão uma maior repercussão, segundo lugar é um desabafo em relação ao tema que tem me consumido pensamentos, formulações e pesquisas e em terceiro lugar é para provar que este espaço tem mesmo que minimamente lugar para discussões interessantes.

Minha Identidade é o Samba.
Ben Hur Rezende
Graduando em História do Centro Universitário Metodista do Sul.


Esse texto pretende discutir algumas narrativas de identidade mestiça sobre o Brasil e a brasilidade através do samba como elemento cultural com traços e formação miscigenada desde a sua gênese, para fundamentar a discussão tomarei como ponto de partida um simbólico encontro no inicio do século XX. Organizado por Sergio Buarque de Hollanda e com as presenças de Gilberto Freyre, Prudente de Morais Neto, e Heitor Villa-Lobos, para uma grande "noitada de violão" um encontro especialmente notável, em 1926,que juntou Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira – três sambistas do grupo Os Oito Batutas com alguns membros da elite cultural e política do Brasil dos anos 20. Esse encontro talvez caracterize a mudança de status do samba como objeto de contravenção para manifestação cultural, representante na formação da identidade brasileira, tal qual a mudança de mentalidade em relação à identidade do brasileiro. Em conjunto com o amadurecimento intelectual dos representantes da elite carioca é possível observar uma mudança no cenário cultural do Rio de janeiro, no que diz respeito à musicalidade, o mágico desse encontro é que, na mesma medida em que esses intelectuais se tornam os grandes nomes de nossas letras, eles carregam junto para o cânone o samba, que cresce com eles. O modo de pensar a mestiçagem nesse momento histórico tem uma relação direta com os movimentos culturais, como sugere Gilberto Freyre.

“O que se sente em todo esse desadoro de antagonismos são as duas culturas, a européia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte um regime de influencias que se alternam, se equilibram ou se hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seu começos e ainda hoje sobre antagonismos.”[1]
È importante remeter-mos aos anos 20 para o entendimento dessa relação, aonde o processo de afirmação de uma identidade brasileira em conjunto com uma construção sócio-cultural a qual o povo brasileiro se reconhecesse era emergente. Ao analisarmos a passagem do texto clássico de Freyre é inegável o quanto o samba e o seu encontro com os eruditos já era previsível, pois naquele momento histórico, as discussões e a afirmação das relações mestiças no Brasil só confirmam o samba como um grande elemento de aglutinação cultural e como um dos eixos de debate sobre a brasilidade. Muito embora o debate sobre o Brasil mestiço fosse mais amplo no que diz respeito à discussão da homogeneidade mestiça do Brasil o samba sintetiza a essa conceitualização. Pois a partir dos anos 20 muitos sambas compostos por mestiços como Paulo da Portela, Cartola, Carlos Cachaça e Armando Marçal, foram gravados e se tornaram sucessos nas vozes de cantores brancos como Francisco Alves, Mário Reis, Carmem Miranda, Araci de Almeida e outros. Podendo entender as relações dos compositores e cantores, esses últimos como verdadeiros mediadores transculturais, que faziam o transito entre os subúrbios pobres e a sociedade burguesa e principalmente com a imprensa. Como se não bastasse essa articulação cultural a participação ativa de intelectuais junto a sambistas promoveram através de alguns mecenas contatos internacionais e nacionais garantindo uma composição cultural muito interessante ao samba. É o caso especifico da temporada de 1922 dos Oito Batutas em Paris quando se disse que a Europa se curvara a música mestiça e popular do Brasil, mostrando que o sucesso do samba estava diretamente relacionado com o seu caráter essencialmente mestiço, fosse ele da ordem da composição, da interpretação e principalmente da sua divulgação como musica nacional. Esse gênero musical brasileiro e hibrido contou para sua consolidação com a convergência dos intelectuais com vários grupos sociais do Brasil. Essa convergência muito embora soasse com certo ineditismo já fora verificado alguns séculos antes como bem observa o escritor José Ramos Tinhorão ao narrar à relação do samba africano com os colonos portugueses dos séculos XVII e XVIII.
“A referencia a um samba “d’almocreves”[2] revela-se perfeita para o caso, por que se a simples referencia ao samba já comportava a idéia de contaminação com a musica julgada selvagem dos
batuques de negros, a preferência dos brancos por tal tipo de som só podia explicar-se em gente muito baixa – e os almocreves lidavam com mulas.”[3]
Essa passagem do livro de Tinhorão é de uma alta relevância para o entendimento da construção do samba como elemento de identidade mestiça do Brasil, ora a conjugação de elementos negros, brancos e índios não se deram apenas com os grandes encontros do inicio do século XX, ela já vinha sendo construída mesmo que gradativamente desde os primeiros encontros dos tambores africanos com as vozes dos criadores de mulas portugueses.
As evidencias que o samba é, e foi um elemento fundamental para a construção da chamada identidade cultural mestiça do brasileiro atravessa os tempos, a partir do samba podemos vivenciar encontros inusitados de intelectuais burgueses e mestiços pobres, tambores e chocalhos africanos com trompetes europeus e sobre tudo uma confluência de varias camadas da sociedade em volta de uma mesa e de um violão. Ratificados por Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, a mestiçagem cultural encontra no samba um dos seus maiores retratos na conjugação de seu ritimo, no balanço de sua dança bem como no encontro das pessoas. Encontro esse narrado como vetor contextual neste artigo, “noitada de violão” no inicio do século XX, foi e é repetido muitas vezes e por milhares de rodas de samba pelo Brasil contemporâneo, onde não causa mais estranheza o fato de eruditos, juntamente com desinformados, brancos, negros, índios e outros irmanados em um só ritimo. O samba em conjunto com outros traços culturais tem elementos que podem representar a mistura na qual está inserida a identidade brasileira, pelo samba podemos vivenciar e explicar a mistura cultural do Brasil. Podemos também afirmar que somos nós brasileiros frutos dessa melação entre o erudito e o popular, entre o rico e o pobre, o branco e o negro, que somos mestiços embalados pelos sons das Orquestras Sinfônicas, pelas guitarras do Rock and Roll, e acima de tudo pelo balanço envolvente de tantãs, repiques, surdos e cavaquinhos.

Um comentário:

  1. É sempre bom ler algo produzido pelos amigos, ainda mais quando se sabe que este amigo entende daquilo que está falando. Já tive o prazer de ler este artigo em outro momento, e tenho certeza de que é o primeiro de muitos que lerei por aqui.
    Parabéns pelo trabalho.

    Abraços.

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